Mulheres de chuteiras

Largas décadas de pontapé num objecto “mole” e de forma esférica, ora com subtileza, ora com força, contacto e muito esforço físico conotou o futebol como uma modalidade masculina. Presentemente, as senhoras já se entregam à “luta” do jogo e ajudam a projectar que o futuro do futebol é no feminino. O coordenador técnico da Federação Portuguesa de Futebol (FPF), Arnaldo Cunha, aproveitou a vinda à capital transmontana para visitar os dois clubes que dão forma ao “futebol de saltos altos”.

Depois de ter passado por Vila Real, enquanto professor universitário, Arnaldo Cunha assume funções na FPF desde 2000. Actualmente, garante a ligação entre as Associações e a Federação e entre esta e o Comité Olímpico e o Instituto de Desporto de Portugal. Convidado a dar uma palestra aos treinadores que frequentam o curso UEFA B-Nível IV, promovido pela Associação de Futebol de Vila Real (AFVR), inteirou-se também dos métodos utilizados na formação vila-realense.

Mudar para melhor

Já é comum ver adeptas femininas de caras pintadas, cachecóis apertados nos pescoços e camisolas com as cores dos respectivos clubes. Contudo, dentro do campo ainda são poucas. “O futebol feminino tem um problema cultural complicado. Na Noruega, há tantas jogadoras de futebol como nós temos no total de atletas no futebol português, 130 mil. Por cá, temos vivido muito na dependência da prática desportiva feminina ser pouco acarinhada”, esclareceu o coordenador técnico nacional.

De Norte a Sul, há cerca de meia centena de equipas formadas. “A prática desportiva feminina é mais apoiada se for uma modalidade como ginástica, atletismo ou basquetebol. Há a ideia de que as mulheres no futebol ficam mais parecidas com os homens em termos físicos.”

Com o passar dos tempos, não foram apenas as regras do futebol que se foram alterando. As condições materiais e o aumento de conhecimentos dos praticantes directos e indirectos dotaram o futebol de mais elegância. “A existência dos campos sintéticos tem vindo a desenvolver muito a modalidade. Em primeiro, porque não se joga em condições tão débeis como se jogava, em terrenos pesados, que sustentavam o futebol na força e que as senhoras muitas vezes não têm. Em segundo, o espaço é mais agradável e atrai as pessoas”, sustentou Arnaldo Cunha.

Por Vila Real…

Os dois clubes que esta época sustentam o sector feminino da modalidade na AFVR estão sedeados na cidade do Peso da Régua. O Régua SC e o FC Fontelas, ambos integrados nas competições da Associação de Futebol da Guarda (uma vez que a AFVR não consegue formar um campeonato), experimentam realidades diferentes, mas com vontades similares. O Régua SC dispõem de um campo com relvado artificial e tem actualmente duas equipas, uma de sub-19 e outra de seniores. Já o clube de Fontelas, que é a 13ª filial do FC Porto, dispõe de um pelado, que torna menos agradável a prática do futebol das suas 13 atletas da equipa sub-19.

“Quando cheguei à Régua e vi as jogadoras num campo sintético tive logo a imagem de equipas americanas, norueguesas, suecas e alemãs. Pela primeira vez, vi equipas a treinar em condições como se vê no estrangeiro e, portanto, fiquei muito satisfeito.”

Esta visita de “cortesia” serviu para mostrar o interesse da FPF no futebol feminino, mas não só. “Esta modalidade tem uma área de expansão importante para o futebol português. Há muitas mulheres que gostam e quando se visitam estes clubes é importante dizer que, em termos sociais, as mulheres têm tanto direito a praticar futebol como os homens”, confidenciou Arnaldo Cunha.

Uma equipa mista

Num roteiro pelos clubes de futebol, não é difícil perceber que meninas… nem vê-las, ainda que os regulamentos permitam a fusão entre sexos nos escalões de formação. “A proposta de alteração de regulamentos surgiu em 2002 e teve uma boa receptividade por parte da direcção da Federação. Algum do futebol feminino que agora existe surgiu um pouco dessa medida que, no entanto, é limitada em termos etários”, explicou o coordenador técnico nacional.

As meninas podem integrar as competições nos campeonatos de formação, por defeito considerados campeonatos masculinos, mas que na verdade são mistos. Até ao escalão de infantis (12 anos), os atletas são indiferenciáveis. O problema surge na transição para o escalão de iniciados. “Há um espaço por ocupar e desenvolver entre os 12 e os 16 anos, idade em que podem participar nas competições existentes.”

Neste ponto, as associações de futebol parecem ter o papel principal na divulgação dos regulamentos e em proporcionar continuidade às atletas que queiram jogar. “Não podemos entender as associações separadas dos clubes. Vejo as associações como elementos de facilitação da prática do futebol por parte das mulheres, quer no futebol, quer no futsal”, concordou o coordenador técnico nacional que, contudo, deixou o alerta que todos têm responsabilidade, “desde a FPF até aos pais”.

As poucas atletas que experimentam o futebol acabam depois por enveredar pelo futsal e a justificação é simples. “É mais fácil organizar a prática feminina no futsal, porque é menos gente e, nas zonas mais frias, é mais fácil treinar num pavilhão.”

Procura-se promoção

O que falta é que as pessoas ligadas à vertente feminina da modalidade atraiam mais atletas e proporcionem condições para evoluir, segundo Arnaldo Cunha. A FPF está consciente de que ainda não foram tomadas todas as medidas necessárias para a fomentação do futebol feminino e tem preparadas mais iniciativas. “Temos algumas medidas que têm de ser aprovadas pela direcção. Passam por criar condições para a prática nos segmentos de juniores, que depois sustentem as equipas seniores que há. Se não for assim dificilmente se poderá melhorar.”

Uma das medidas de dinamização da modalidade é o Torneio Inter-Associações Feminino organizado na Páscoa desde o ano 2000. “Este torneio de futebol de 7 conta com a participação de cerca de metade das associações do País, aquelas que se revêem na necessidade do futebol feminino”, afirmou Arnaldo Cunha.

Neste encontro marcam presença obrigatória os coordenadores técnico-distritais e os seleccionadores nacionais no controlo da qualidade do futebol. Deste grupo de observação saem as escolhas para representar as selecções de sub-19 e seniores.

“Não é circunscrito a jogadoras federadas. A Associação de Évora, por exemplo, não tem equipas filiadas que façam um campeonato regional, mas todos os anos com as raparigas que jogam no desporto escolar fazem uma equipa.”

Na edição de 2008, a AFVR não deixou de competir, tendo alcançado o 10º lugar em 13 equipas. O apoio financeiro por parte da FPF está garantido e Arnaldo Cunha espera que este ano mais associações façam participar as suas equipas. “A melhor coisa que pode acontecer quando se joga ou pratica uma actividade é ser-se seleccionado ou promovido e, por isso, integrar uma selecção distrital e defrontar equipas superiores seria um incentivo a todas as jogadoras.”

Apesar das sua limitações, a AFVR será uma das mais aguardadas selecções distritais a participar nesta competição, já que representa a evolução a que o sector tem assistido.

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