Entrevista Mónica Jorge

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Mónica Jorge é um caso único no futebol português. Com apenas 30 anos de idade comanda os destinos da selecção nacional de futebol feminino e também da selecção feminina de sub-19. É a única mulher no país que tem o curso de IV nível de treinadores da UEFA. A Academia de Talentos foi falar com a mulher que deu uma nova visão, uma nova dimensão e uma nova chama ao futebol feminino português.

Sempre bem disposta, muito simpática e muito frontal, a seleccionadora nacional fez um balanço dos noves anos na federação, fez um retrato do futebol feminino em Portugal, contou o nascimento da paixão pelo desporto rei e ainda revelou algumas histórias e pormenores interessantes, que pode descobrir nesta entrevista da Academia de Talentos.



REALIDADE DO FUTEBOL FEMININO EM PORTUGAL

Como estamos num país que ama o futebol, se a selecção feminina conseguir um grande sucesso é normal que as pessoas apareçam. Espero sinceramente que isso aconteça no futuro.

Um dia ambicionamos chegar aos três grandes. Mais tarde ou mais cedo, os grandes vão aderir, porque também é um mercado bom e podem tirar daí grandes benefícios.

O facto do campeonato português ser pouco competitivo também prejudica a selecção?

Sim. De facto, prejudica um pouco. Daí a alteração dos quadros competitivos para que se instale uma nova dinâmica. O campeonato vai ter dez equipas, não há necessidade de ter mais, em virtude da crise económica que os clubes atravessam. Penso que se essas dez formações investirem bem, se ganharem hábitos e métodos de treino, a competição tem tudo para correr bem e ser cada vez mais competitiva. A aposta da federação é nesse sentido, e vai prestar todo o apoio a essas formações para que possam ter reunidas todas as condições. A II divisão vai ficar aberta à entrada de novas equipas que possam defrontar outros conjuntos da mesma zona geográfica, o que torna as coisas mais económicas. E depois há ainda o futebol de sete a nível associativo. Penso que esse vai ser o passo mais importante ao nível da formação, e vai tapar algumas lacunas nesse sentido. O crescimento do futebol de sete vai formar mais e melhores jogadoras, e isso vai obrigatoriamente criar mais equipas de futebol 11 no futuro.

Para além das mudanças que mencionou há pouco e que vão ser levadas a cabo pela federação, que outras alterações deviam ser implementadas no futebol feminino?

A equipa técnica da selecção nacional não gosta muito de pensar a longo prazo, acho que a conjectura económica que atravessamos também não permite grandes planos para o futuro. Pensamos sempre a curto prazo, isto é: a realidade é esta, por isso vamos fazer o que está ao nosso alcance para mudar. Damos sempre um passo de cada vez. Por exemplo, os quadros competitivos vão mudar, por isso nos próximos anos vamos fazer um balanço e ver o que há a ajustar e reformular de acordo com as necessidades existentes. E este método aplica-se aos vários escalões e às várias áreas. No futebol de sete vai ser igual, depois de vermos o que melhorou, vamos ver o que ainda se pode fazer e que incentivos temos de criar. É sempre um projecto que vai ganhando forma ao longo do tempo, e que depende sempre da realidade e das necessidades. Porque a crise não mexe só com o futebol masculino, afecta todo o futebol, inclusive o feminino. Assim, os projectos e alterações a contemplar são sempre de acordo com a realidade e com as situações menos boas que vão surgindo.

Na altura em que o José Augusto era o treinador da selecção A, criticava-se o facto de muitas jogadoras virem para a selecção, oriundas do futsal. Isso ainda acontece nos dias de hoje?

Infelizmente sim. O futebol de formação feminino ainda não está como ambicionávamos. Daqui a três/quatro anos esperamos que as coisas possam já estar muito melhores, fruto das alterações dos quadros competitivos, e da aposta no futebol de 7 na formação. Mas, enquanto isso não acontece temos de contar com a ajuda dos nossos colaboradores do futsal. Digo colaboradores porque nos ajudam, ao emprestarem as suas jogadoras à selecção de futebol 11. Depois há jogadoras que demoram algum tempo a adaptarem-se a esta realidade, e outras que assimilam mais facilmente os processos. Mas enquanto a nossa formação não se desenvolver, continuamos a necessitar da ajuda dos colaboradores do futsal. Contudo, espero que esta nova aposta da federação na formação e na alteração dos quadros competitivos, venha a surtir efeito daqui a pouco tempo, e se assim for, já não vai ser preciso recorrer às jogadoras do futsal. Ou pelo menos vai haver limitações nesse sentido. Espero que isso aconteça o mais rápido possível.

Quero deixar uma palavra de agradecimento às pessoas do futsal que têm colaborado connosco, têm sido uma ajuda preciosa, e a relação entre todos é boa. Mesmo as jogadoras que vêm desse futebol, ou outras que venham de fora do país, constroem sempre uma boa relação com as que já cá estão na selecção há mais tempo.

Também acha que devia existir maiores incentivos para as raparigas jovens começarem a praticar futebol?

Claro. Mas para isso é preciso que estejam reunidos um conjunto de factores. É necessário que haja um grande entendimento entre a federação, as associações e as câmaras municipais. Só assim é que as coisas poderão aparecer. Mas não é fácil. É um projecto que tem de ser estudado, que tem de ser gerido com calma, para que tudo corra bem, para que os objectivos sejam os mesmos de todas as partes envolvidas, e para que possa haver uma cooperação entre todos. Por vezes há um interesse de uma câmara ou de uma associação, mas é preciso que esteja tudo em sintonia. É nesse sentido que vamos trabalhar. A mudança dos quadros competitivos é positiva, mas terá de haver uma base que possa sustentar o projecto. Essa base é a formação e terá de ser levada a sério e até ao fim, porque se isso não acontecer, o projecto acabará por morrer. Não gostamos de fazer as coisas com pressa, por isso apostamos numa mudança de mentalidades e numa entreajuda de todos os presentes.

É preciso mudar as mentalidades de todos, de jogadoras, treinadoras, dirigentes para que haja mais positivismo e confiança de que é possível melhorar no futuro.

A equipa técnica nacional faz prospecção nos jogos de Norte a Sul do país. A maioria das pessoas nunca viu um jogo de futebol feminino, pode explicar como é que é o ambiente em torno de uma partida do Campeonato? Por exemplo na Alemanha os estádios estão sempre cheios.

No caso alemão é normal, porque a federação já trabalha no futebol feminino há mais de vinte anos e colheram frutos com isso, pois conquistaram vários títulos mundiais e europeus. Eu lembro-me de um episódio curioso que ocorreu há algum tempo. Fomos jogar à Alemanha depois da selecção ter conquistado o Mundial, e quando as nossas jogadoras entraram no estádio ficaram perplexas, pois o recinto estava cheio e o ambiente era incrível. Aquilo era uma loucura. É um país que já conseguiu grandes feitos, por isso é normal que as pessoas adiram de outra forma, muito mais entusiástica. Algumas jogadoras são autênticos ídolos para muitas meninas como é o caso daPrinz, e só isso já faz com que muitas pessoas vão ao Estádio. Em Portugal ainda não acontece isso, infelizmente. No entanto quando atingirmos um determinado nível, quando conseguirmos um resultado de grande relevo, isso pode acontecer. Ainda há pouco tempo nos jogos de apuramento da selecção nacional de sub-19, que se realizaram na Mealhada estiveram quase mil pessoas a assistir, a bancada principal estava repleta. Mas foi uma situação ocasional. O sucesso, a divulgação nos media, é que traz mais pessoas aos estádios.

Portanto, acha que é preciso um resultado de grande relevo para que haja mais interesse e apoio à selecção feminina?

Claros, os grandes resultados são sempre necessários. Vejamos o caso de outras modalidades. O râguebi, o triatlo ou o judo só adquiriram maior dimensão quando alcançaram grandes feitos. Os media começaram a falar mais, o interesse das pessoas aumentou, o numero de praticantes da modalidade também. E desse modo, como estamos num país que ama o futebol, se a selecção feminina conseguir um grande sucesso é normal que as pessoas apareçam. Espero sinceramente que isso aconteça no futuro.

Quais são as principais diferenças estruturais e organizativas que existem entre o nosso país, e outros que estão mais desenvolvidos no que diz respeito ao futebol feminino?

A cultura desportiva também tem uma grande importância nesse sentido. Por exemplo nos países nórdicos, há uma cultura da paridade, da igualdade. Desde pequenos, ambos os sexos treinam e jogam juntos. E depois também há a acrescentar o hábito de praticar desporto desde tenra idade. No nosso país, muitas crianças só fazem exercício físico quando tem a disciplina de educação física. A cultura latina é um pouco diferente nesse aspecto.

Considera que ainda há algum preconceito de colocar meninas muito jovens a jogar futebol?

Sim, ainda há um pouco essa ideia. Mas tende a desaparecer. Actualmente já existem meninas que pedem para ir para o futebol, e se olharmos a composição das equipas do escalão de escolas, também vemos lá duas/três meninas. E os pais cada vez apoiam mais. Na selecção de sub-19, tenho algumas jogadores de 16/17 anos, e os pais vão ver, apoiam, sofrem, e quando a filha não joga já questionam, já protestam. Mas claro que ainda não tem aquela dimensão, que já existe nos países mais desenvolvidos. No entanto, como eu costumo dizer, um sucesso pode mudar muita coisa, pode alterar mentalidades, modificar a realidade e a dimensão das coisas.

Se os três grandes investissem no futebol feminino, a modalidade podia ganhar com isso? O campeão nacional é o 1º de Dezembro, uma equipa de Sintra, que tem pouca expressão a nível nacional.

Claro que sim. Um dia ambicionamos chegar aos três grandes. Mais tarde ou mais cedo, os grandes vão aderir, porque também é um mercado bom e podem tirar daí grandes benefícios. A UEFA tem feito isso, o alargamento e a aposta no futebol feminino traz vantagens. As marcas ganham com isso, há mais compras, mais solicitações. E o mesmo se passa nos clubes, porque conseguem mais receitas. E um dia podemos chegar a esse cenário, que seria bastante positivo para o futebol feminino. O caso do futsal é paradigmático. Quando o Sporting e Benfica adoptaram a modalidade, houve de imediato um maior dinamismo, um maior interesse, mais transmissões e mais público.

Como é o apoio da federação à selecção feminina, a nível de estágios, deslocações, alojamentos etc?

A federação apoia a 100%. O futebol masculino e o feminino tem os mesmos apoios, regalias e incentivos.

Há algum tempo o mister Nuno Cristóvão disse que o futebol feminino em Portugal estava atrasado vinte anos. Mas não nos podemos esquecer, que a selecção esteve parada alguns anos. Porque é que isso aconteceu?

Não posso responder a isso, porque não sei as razões, ainda não estava cá e desconheço o processo. Mas também não é o que mais me preocupa neste momento, eu, a minha equipa técnica e as minhas jogadoras estamos interessadas em olhar para o futuro, e não para o passado.

A EVOLUÇÃO DA SELECÇÃO NACIONAL A

As jogadoras estão mais fortes mentalmente, isso reflecte-se na selecção. Estão todas mais aptas para o desafio e isso vê-se na força grupal que existe.

Foi uma grande vantagem para a selecção, o facto de muitas jogadoras emigrarem para países que têm campeonatos muito mais competitivos?

Sim, claro. Neste momento temos sete jogadoras a jogar em Espanha, num campeonato com 16 equipas muito competitivo e com jogos quase todos os fins-de-semana. Depois temos três nos Estados Unidos, duas na Islândia e as restantes estão em Portugal. Mas nota-se que as jogadoras que actuam no estrangeiro têm uma base competitiva e física muito mais forte. Isso permite que a equipa já consiga manter níveis físicos elevados durante os 90 minutos. É óbvio que ainda falta muito trabalho, não basta ter só seis jogadoras num nível elevado, era melhor que fossem as onze. Mas, estou esperançada que os novos quadros competitivos tragam grandes melhorias nesse sentido. As jogadoras e os próprios treinadores vão ser mais exigentes e claro que isso vai ser bastante benéfico para o nível da selecção.

Há pouco tempo esteve em Rio Maior numa conferência, onde afirmou que a selecção estava mais forte psicologicamente. Isso quer dizer que está preparada mentalmente para outros voos?

Sim. As jogadoras quando ganham, também começam a ambicionar voos mais altos. A selecção vinha de uma série de resultados menos positivos, mas nos últimos anos teve bons resultados e criou o hábito de ganhar. Para além das vitórias, as exibições melhoraram, houve jogos em que estivemos a perder por um ou dois golos e conseguimos dar a volta. Isto acontece porque têm confiança, já não baixam a cabeça, e lutam mais. As vitórias dão sempre outro alento e motivação. As jogadoras estão mais fortes mentalmente, isso reflecte-se na selecção. Estão todas mais aptas para o desafio e isso vê-se na força grupal que existe.

Na selecção A masculina há dificuldades em arranjar jogadores canhotos. Também existe essa complicação nas mulheres?

Sim. As dificuldades que existem num lado, também estão no outro. É difícil arranjar uma lateral esquerda, com certo tipo de características que se encaixem no nosso modelo de jogo, e por isso temos de pedir a colaboração dos nossos amigos do futsal. Outra posição complicada é a de guarda-redes, é complicado encontrar guardiãs altas e com qualidade. Nós por natureza também não somos um povo que tenha raparigas muito altas como é o caso dos nórdicos. Também é complicado encontrar uma ponta de lança com características específicas para a selecção. O nosso universo de recrutamento também não é o ideal, temos apenas 1200 jogadoras. Mesmo assim já se encontra muita qualidade, e quando formos 10000 nem quero imaginar. Mas actualmente, não é um processo fácil.

Como é que é feita a prospecção das jogadoras da selecção? Deve ser complicado porque muitas actuam no estrangeiro?

É um processo que passa por várias etapas. Durante os fins-de-semana vamos observar jogos quer dos campeonatos distritais, quer dos nacionais e também jogos de futebol de 7. Somos só três técnicos, por isso às vezes é complicado. Em situações pontuais vamos também ver alguns jogos de futsal, quando nos chegam informações de uma determinada jogadora ou quando temos necessidade. Ou seja, quando a selecção sente carências para uma determinada posição, ou precisamos de alguma jogadora com características específicas e não encontramos no futebol 11, pedimos a colaboração dos nossos colegas do futsal. Quanto às jogadoras que estão no estrangeiro o processo é diferente. Quando alguém está interessado em representar a selecção, contacta-nos ou por e-mail ou por telefone, explica-nos a situação e geralmente eu peço um vídeo da jogadora. Depois analisamos o caso e se nos interessar pedimos para vir cá fazer testes. Felizmente, e quero agradecer por isso, também já existem treinadores portugueses a trabalhar no estrangeiro, que nos alertam e informam sobre jogadoras que podem vir reforçar a selecção. Isso já aconteceu em países como o Canadá, Suíça e França. O futebol feminino já começa a ser falado, quer pelos jornais, internet e televisão, e isso facilita as coisas.

Há muitos problemas relacionados com o facto dos clubes não deixarem vir as suas jogadoras à selecção?

Esse problema acontece de vez em quando, principalmente por parte dos clubes espanhóis. São muito individualistas, como a jogadora “pertence” ao clube acham que têm o direito de a ter lá, e quando as datas de jogos não são marcadas pela UEFA é ainda mais complicado. Mas até agora as coisas têm sido geridas com calma, e conseguimos sempre trazê-las.Monica_Jorge_1 

MUNDIALITO 2009

Houve pessoas que nunca tinham visto e adoraram, muitas nem sonhavam que os jogos já tivessem tanta qualidade. Houve logo mais solicitações, mais interesse das pessoas, e abriram-se de imediato outras perspectivas.

É preciso salientar, que a seguir ao Mundial e aos Jogos Olímpicos é o torneio com mais importância no futebol feminino mundial.

Este ano, o Mundialito do Algarve teve uma grande cobertura por parte dos Media. As rádios já davam os resultados na hora, os jornais deram ênfase ao acontecimento, e até as televisões se debruçaram sobre o assunto?

Sim. Isso só vem dar razão ao que estava a dizer anteriormente. Já no ano passado fizemos um bom Mundialito, mas este ano superamos claramente a marca. E por isso, as rádios já deram os jogos em directo, uma ou outra estação de televisão também fez um maior acompanhamento, entrevistando as jogadoras e treinadoras, e mesmo as assistências dos jogos superaram bastante as expectativas. As vitórias e as boas exibições deram logo outra dimensão. Houve pessoas que nunca tinham visto e adoraram, muitas nem sonhavam que os jogos já tivessem tanta qualidade. Houve logo mais solicitações, mais interesse das pessoas, e abriram-se de imediato outras perspectivas. Dai eu dizer que se chegarmos a uma fase final, acho que o futebol feminino pode dar um salto enorme. Porque o potencial está lá, falta uma maior exploração e um maior amadurecimento.

Como avalia a participação portuguesa no Mundialito deste ano? Portugal só perdeu com a Finlândia, e nas grandes penalidades.

Foi bastante bom. As jogadoras ambicionavam ganhar à Finlândia, mas já era o quarto jogo, havia algum cansaço e foi preciso rodar um pouco a equipa. Ainda conseguimos restabelecer a igualdade, mas depois fomos derrotadas nos penaltis. Curiosamente, voltamos a perder nas grandes penalidades, no ano passado também foi assim contra a China. Nessa altura, já foi um feito histórico empatar com as asiáticas, porque estão um pouco mais acima no ranking do que as nórdicas. No primeiro jogo as jogadoras entraram um pouco nervosas, mas depois tudo melhorou ao longo do tempo. As próprias jogadoras ficaram agradadas com a sua prestação, e isso foi muito importante para todos, inclusive para a equipa técnica. É sinal que estão a gostar de estar a trabalhar connosco, que estão abertas às nossas ideias, aos nossos métodos e a nossa relação é cada vez melhor.

O facto de Portugal organizar o torneio e trazer selecções famosas ao nosso país também foi muito importante para a divulgação da modalidade?

Sim, mas Portugal já organiza o torneio há algum tempo e é pena nunca se falar nisso. As melhores equipas do Mundo costumam estar cá. Apenas o Brasil é que não vem, já foi convidado muitas vezes mas rejeita, talvez porque os custos são elevados. O torneio já se realiza há dez anos, as selecções adoram vir cá, estar no Algarve, e é pena os media não terem dado tanta atenção até agora. Contudo, com a aposta da UEFA no torneio, com a tentativa de dar maior dinamismo ao mesmo, penso que pode haver um maior interesse por parte de todos, no futuro. Porque é preciso salientar, que a seguir ao Mundial e aos Jogos Olímpicos é o torneio com mais importância no futebol feminino mundial.

No torneio deste ano, houve um canal de televisão que a acompanhou no banco de suplentes no jogo com a Finlândia. É assim que se costuma comportar, ou estava condicionada porque sabia que estava a ser filmada?

Por acaso nesse jogo até me exaltei um pouco mais do que é normal. Primeiro, porque era um jogo importante, e depois como as jogadoras já estavam mais desgastadas, eram precisos incentivos adicionais. Se elas ouvirem a minha voz no banco sentem-se com mais força e alento, para disputar os lances. Mas fui bastante activa, é claro que sabia que tinha o microfone à frente, e por isso sabia que não podia dizer algumas coisas mais feias (risos). Na selecção principal nem costumo ser tão interventiva. As sub-19 exigem um pouco mais nesse aspecto, porque é preciso fazer mais correcções, dar mais incentivos. Mas foi uma experiência engraçada, tive algumas reacções engraçadas, espontâneas, e naturais, como no golo da Carla Couto. Foi um grande golo, ela já o procurava há muito, mas penso que também serviu para mostrar o grande espírito de grupo. Todos vibraram com o golo, a minha voz ouviu-se mais porque tinha o microfone, mas todos gritaram e a emoção ficou ali bem patente, nos festejos.

O NASCIMENTO DO BICHINHO PELO FUTEBOL E O CAMINHO ATÉ À FEDERAÇÃO PORTUGUESA DE FUTEBOL…

Ou jogava a ala ou a pivot, já não me recordo muito bem. Eu oferecia os golos às outras jogadoras. Mas nunca fui uma grande jogadora, como se costuma dizer, nunca fui grande espingarda (risos).

Como nasceu o bichinho pelo futebol?

Para além de jogar na rua com os colegas e na escola, o meu pai desde muito cedo começou a levar-me a ir ver os jogos da Académica de Coimbra na bancada central, dos sócios. Ele não tinha rapazes, e então levava-me a mim. As duas coisas juntaram-se e assim nasceu o bichinho. Mas também gostava de outros desportos.

Quando jogava futebol qual era a sua posição e as suas características?

Eu joguei futsal. Na altura havia poucas equipas de futebol onze. Ou jogava a ala ou a pivot, já não me recordo muito bem. Eu oferecia os golos às outras jogadoras. Mas nunca fui uma grande jogadora, como se costuma dizer, nunca fui grande espingarda (risos).

Para além do futebol sabemos que foi uma atleta federada noutras modalidades como o futsal, ou o halterofilismo. Chegou ainda a conquistar alguns títulos?

Sim. À medida que ia crescendo tinha a curiosidade de experimentar outras modalidades. Cheguei a praticar basquetebol, atletismo, râguebi. No halterofilismo foi onde talvez tenha chegado mais longe. Representei a selecção nacional no escalão de júnior. Contudo, nunca deixei de jogar futebol, sempre consegui conciliar a bola com os outros desportos. Entretanto fui progredindo no halterofilismo, consegui alguns títulos regionais, nacionais até chegar aos estágios da selecção nacional. Mas quando entrei para a faculdade tive de parar e dediquei-me somente aos estudos.

Como decidiu tirar o curso de Desporto na Escola Superior de Rio Maior?

Na altura em que concorri, só o pude fazer na segunda fase porque me faltava terminar a disciplina de Matemática. Como é normal, na segunda fase, as melhores faculdades em Coimbra, Lisboa, já têm as vagas todas preenchidas. Então, candidatei-me à escola superior de Rio Maior, era nova, diferente. Entrei e quando lá cheguei vi as várias opções, e apesar de também gostar do curso de condição física, do trabalho em ginásios, devido às bases que tinha adquirido no halterofilismo, escolhi imediatamente o futebol. O professor José Peseiro que era o meu orientador de curso também teve uma grande influência na minha preferência pelo futebol porque me incentivou e motivou nesse aspecto. E acabei por concluir o curso de alto rendimento na vertente de futebol.

Falou agora do mister José Peseiro. Que recordações tem dele?

Tenho recordações muito boas. Nas aulas práticas era uma pessoa muito divertida, bem disposta, riamos muito. Tinha também uma personalidade bastante forte, às vezes pode não parecer, mas tem. Foi das pessoas que mais gostei de ter enquanto professor, ensinou-me muito, sabia muito bem separar o trabalho do divertimento. Mas penso que não fui só eu que gostei, todos os alunos que tiveram oportunidade de o ter como professor gostaram imenso. Foi muito importante na minha formação, foi também o meu “padrinho” no estágio que fiz aqui na federação e ajudou-me no desenvolvimento desta nova profissão, como treinadora. Em conclusão, guardo as melhores recordações dele, porque foi fundamental numa fase da minha vida. Actualmente já não falo tanto com ele, porque como se sabe, está no estrangeiro, mas continuo a ter um grande carinho por ele.

No tempo em que tirou o curso na cidade de Rio Maior teve também a oportunidade de treinar equipas masculinas, ainda que nos escalões de formação?

Sim, o Núcleo sportinguista de Rio Maior/ Foot Escola, que era uma escola de futebol, tinha vários escalões da formação, excepto os juniores. Eu era a treinadora principal de um escalão, mas era também adjunta de outros e desse modo, acabávamos por treinar em quase todos os escalões. Éramos um grupo de cinco jovens técnicos, eu era a única rapariga, mas dava-me muito bem com os miúdos, ainda hoje mantenho contacto com alguns deles. Inclusive acompanham a minha carreira e são os primeiros a felicitar-me quando acontece algo de positivo. Muitos deles estão bem, são ainda jogadores, e não deixaram os estudos para trás, o que é de salutar.

Esse período foi muito importante, vi como é que funcionava uma escola de futebol, como era a sua organização. Depois, ainda tentei conciliar essas funções com o estágio na federação mas foi impossível, e tive de optar, não conseguia estar em dois lados ao mesmo tempo. No entanto, é uma altura que deixa muitas saudades, fiz muitos amigos, fui sempre muito apoiada e bem recebida, e noto que os miúdos têm algum carinho por mim e eu por eles.

Depois, como se processou a sua vinda aqui para a federação?

Quando eu estava no terceiro ano da faculdade precisava de um local para cumprir o meu estágio e surgiu a possibilidade de vir para a federação, para o futebol feminino. Enviei o meu currículo, com o apoio do mister José Peseiro e acabei por ficar. Cumpri um ano com o professor Nuno Cristóvão, que tinha acabado de entrar também e fui permanecendo ao longo do tempo. Depois a federação foi investindo na minha formação profissional, tirei o II, III e IV níveis do curso de treinador e posteriormente surgiu o convite para treinar a selecção. Já lá vão nove anos desde que entrei pela primeira vez nesta casa.

 

 

OPINIÕES

Antes de mais, eu tenho uma excelente equipa técnica…. Costumo dizer que um é o meu braço direito, o outro é o meu braço esquerdo.

Gosto de jogadores criativas, e dinâmicas, e não tanto das germânicas e nórdicas que têm um estilo de jogo mais baseado no físico. Prefiro jogadoras latinas.

Durante o período inicial em que esteve na federação trabalhou com o mister José Augusto. Que recordações tem dele?

É uma pessoa muito caricata. Respeito-o muito, foi um grande jogador de futebol, e passamos bons momentos. Tem uma visão muito própria e complexa do futebol e só de ouvi-lo aprendíamos sempre qualquer coisa. Tem sempre boas histórias para contar, boas referências e possui muita experiência. É lógico que tínhamos visões diferentes, concepções até do próprio treino que divergiam, mas é um homem que respeito muito e pelo qual tenho a maior admiração. É sempre bom trabalhar com uma pessoa que ainda hoje constitui uma referência para o futebol português.

Fale-nos um pouco sobre a sua equipa técnica. Ou seja, das pessoas que trabalham mais directamente consigo?

Antes de mais, eu tenho uma excelente equipa técnica. Também porque fui eu que a escolhi (risos). O professor Sacadura já tinha trabalhado comigo, a professora Susana apenas a conheci porque também foi jogadora da selecção. Tracei um perfil das pessoas que eu queria para trabalhar comigo, vi que tinham uma forma de estar que se assemelhava à minha e por isso achei que eram as pessoas ideais para me acompanhar. Equilibramo-nos muito bem. É obvio que por vezes há divergências de opiniões, mas a filosofia é sempre a mesma.

Falando mais pormenorizadamente de cada um, o professor Sacadura ajuda muito nos aspectos técnicos e tácticos. É muito experiente, esteve muitos anos a coordenar a Associação de Futebol da Guarda e formamos um elo perfeito aqui na selecção. Os nossos pontos de vista são quase sempre semelhantes. A professora Susana gosta muito de trabalhar com juventude, faz uma excelente ligação entre os técnicos e as jogadoras. Todas gostam muito dela. Os nossos pontos de vista também costumam estar de acordo e por isso formamos uma boa equipa. É importante salientar que o meu trabalho também depende muito deles, sem eles nada conseguia. Quando falo em algum sucesso do futebol feminino menciono sempre o “Nós”, porque completam-me, dão-me muita força e apoio em alturas que posso estar mais desanimada. Por tudo isto, costumo dizer que um é o meu braço direito, o outro é o meu braço esquerdo. Com uma equipa destas não podia pedir melhor. Confiamos muito uns nos noutros, e se as coisas estão a correr bem é graças a toda a equipa técnica.

Também concorda com a inclusão das mulheres na arbitragem?

Claro que sim. A nível físico a exigência não é tão grande, as mulheres podem claramente estar ao nível dos homens, para acompanhar um jogo do princípio ao fim. E depois a arbitragem envolve aspectos psíquicos, a decisão, e nisso as mulheres estão a um nível igual ou até superior aos homens. São capazes de executar tal e qual as mesmas funções. Não vejo qual o problema, e seria bom uma árbitra chegar à I Liga a curto prazo. Seria uma lição para muitos jogadores da bola, aprenderiam a respeitar mais as decisões. Nos outros países já se observa esse fenómeno há algum tempo. Ainda há poucos meses vi uma partida da I liga de outro país a ser arbitrado por uma mulher, que é casada com um árbitro, e esteve muito bem, efectuou uma actuação espectacular.

A selecção masculina brasileira tem características diferentes de todas as outras. Tem mais fantasia, mais magia. No futebol feminino também é assim?

É. As características são semelhantes. O mesmo se passa com a nossa selecção. Até as dificuldades que existem na equipa masculina também existem na feminina, o que é sintomático, e mostra bem a semelhança. É difícil encontrar pontas de lança e guarda-redes. Curiosamente, nos homens também tem existido essa dificuldade nos últimos tempos. Nós jogamos no mesmo sistema táctico da selecção masculina, e há muitas jogadoras que também têm características que se observam no outro sexo. Talvez porque algumas se inspiram no Cristiano Ronaldo, no Quaresma, etc. As jogadoras latinas também têm muita fantasia. A Marta, (jogadora da selecção brasileira), tem aquela magia, aquela fantasia, que muitas vezes vemos na selecção masculina. Mas não é só ela, o Brasil tem lá mais três ou quatro jogadoras que são simplesmente fantásticas.

Na nossa selecção também é um pouco assim, temos jogadoras como a Carla Couto, a Sofia Vieira, a Edite Fernandes, que são muito tecnicistas, e criativas. E estas são aquelas jogadoras que só nascem nos países latinos, no Norte da Europa por exemplo, é raro vermos isso. O caso alemão também ilustra bem a comparação que há com os homens. Essa selecção foi campeã do Mundo e também tem um jogo bastante físico e poderoso.

Qual é o melhor jogador e jogadora do Mundo na sua opinião?

Eu estou um pouco dividida. Ultimamente tenho andado a gostar muito do Messi, mas o Cristiano Ronaldo parece que já está a voltar à sua melhor forma. Se ele tivesse feito a época toda como a anterior não teria dúvidas em escolhê-lo, mas assim penso que o argentino está um pouco mais à frente. O Cristiano também já começou a jogar tarde, esteve lesionado, e por isso tenho de considerar o Messi mais regular.

E no lado feminino?

A Marta, sem dúvida que é a melhor do Mundo. Ela é fantástica. Apesar de gostar muito de outra brasileira, a Cristiane. Gosto de jogadoras criativas, e dinâmicas, e não tanto das germânicas e nórdicas que têm um estilo de jogo mais baseado no físico. Prefiro jogadoras latinas.

E qual a sua Liga de eleição, tanto no caso feminino, como no masculino?

Eu aprecio bastante a liga inglesa, e a espanhola. A primeira, porque é muito competitiva, e muito exigente, a segunda porque tem muita magia e criatividade. No lado feminino os campeonatos mais fortes são o sueco e o americano. Este último está muito forte, tenho acompanhado muitos jogos, e tem grandes golos, as jogadoras têm uma capacidade física muito forte. É uma liga que já tem um nível fantástico.

O Porto é um justo campeão da Liga?

Sim, foi a equipa mais regular durante a época, foi a que errou mesmo, e se conseguiu a vantagem que tem, é inteiramente justo. Isto é uma verdade inequívoca, as equipas que perdem menos pontos, as que são mais regulares, são as campeãs.

Monica_Jorge_3DIFERENÇAS ENTRE O FUTEBOL FEMININO E O MASCULINO

Nos aspectos tácticos e técnicos é que já há mais semelhanças. Trabalha-se da mesma forma, os processos são idênticos, os modelos de jogo, os sistemas tácticos, os esquemas tácticos, tudo é parecido. No plano físico, na potência, resistência é que há mais discrepâncias.

Há elementos da selecção dos Estados Unidos, da Alemanha e até a Marta do Brasil que teriam condições para jogar numa equipa masculina. Agora não sei se esse facto seria bem aceite pelos homens, não sei se estavam preparados para isso.

É diferente motivar raparigas e rapazes?

É. A rapariga precisa de mais atenção, de níveis de confiança maiores. O rapaz é mais liberal, pensa que já sabe tudo. As raparigas têm mais paciência, sabem ouvir melhor, gostam que lhes expliquem as tácticas, os processos. É mais certinha, por vezes nem há a necessidade de lhes explicarmos tudo, mas elas querem sempre. Dentro do campo também há diferenças, porque por exemplo os níveis de confiança das raparigas aumentam quando as apoiamos, ou lhes damos um grito, por exemplo. A nível emocional as raparigas são muito mais trabalhosas.

E nos aspectos do jogo, quais são as principais diferenças, para além do aspecto físico?

Para já é importante frisar que são jogos bastantes distintos e que não se podem comparar. Se é jogado por corpos diferentes, é óbvio que não pode ser igual. Há diferenças fisiológicas inatas que não se podem contornar. O jogo feminino não é tão explosivo, é mais jogado, a bola não pára tantas vezes. Também tem golos e jogadas bonitas. Por exemplo nos Estados Unidos, a Liga é muito competitiva, os jogos têm uma grande intensidade e as jogadoras estão muito bem preparadas fisicamente. O futebol feminino evoluiu muito, comparando com alguns anos do passado, agora também é verdade que ainda não se assemelha e não sei se alguma vez se vai parecer com o masculino. Se por acaso algum dia se praticasse futebol misto, também já haveria diferenças em relação a estes dois.

Nos aspectos tácticos e técnicos é que já há mais semelhanças. Trabalha-se da mesma forma, os processos são idênticos, os modelos de jogo, os sistemas tácticos, os esquemas tácticos, tudo é parecido. No plano físico, na potência, resistência é que há mais discrepâncias.

Há algum tempo atrás falou-se que uma jogadora poderia ser contratada por um clube da Serie A, o Perugia, para jogar entre os homens. Acha que isso seria possível?

Em algumas jogadoras penso que seria possível. Há elementos da selecção dos Estados Unidos, da Alemanha e até a Marta do Brasil que teriam condições para jogar numa equipa masculina. Agora não sei se esse facto seria bem aceite pelos homens, não sei se estavam preparados para isso. Por exemplo nos países nórdicos, como as equipas são mistas até certa idade, a aceitação seria muito maior. Essa cultura já está implementada. Nas regiões mais latinas, como é a italiana penso que isso não seria bem aceite, e que não será praticável. De certeza, que os jogadores mais velhos, com outros hábitos não iam aceitar bem. Mas, sublinho que algumas jogadoras tinham condições para estar entre os homens e não faziam má figura de certeza.

Quando estão em estágios optam por fazer jogos treino com equipas masculinas. Porquê?

As nossas adversárias são selecções mais poderosas fisicamente. E tirando uma ou outra equipa feminina sénior em Portugal, a maior parte não têm essas características. E como não é muito positivo estar sempre a defrontar as mesmas adversárias, e depois porque também não há muita disponibilidade, optamos por enfrentar os homens. Consideramos que a equipa fica mais preparada para a agressividade, dureza e competitividade dos jogos que vai ter. Não nos importamos de perder jogos, nós queremos ver quais são as jogadoras que têm capacidade de resposta perante um adversário mais forte, e observar como a equipa se comporta perante um adversário mais organizado, explosivo, agressivo. É essa a realidade que vamos encontrar lá fora. E desse modo as jogadoras já não ficam tão surpresas, já sabem o que vão encontrar, ficam mais preparadas. Para nós é bastante benéfico fazer isso. E não somos a única selecção que faz isso, muitas outras por esse mundo fora, também adoptam essa estratégia. É uma boa forma de se adaptarem à agressividade, e ao ritmo de jogo que poderão vir a encontrar. Portanto, o ideal para nós é jogar com equipas masculinas ou então de escalões superiores.

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EXPECTATIVAS E PLANOS PARA O FUTURO

Considero que a nossa actual posição, a 42ª em nada condiz com o nosso valor, nem com o futebol que praticamos. É importante dar um saltinho. Depois se conseguirmos ir mais longe, se tivermos um pouco de sorte, tudo é possível.

O meu objectivo não passa pelo futebol masculino.

… quero deixar o futebol feminino num patamar superior ao que está, ou seja, quero deixar as coisas melhores do que quando cheguei a esta casa para trabalhar.

Que expectativa tem na qualificação para o Mundial da selecção A, que vai decorrer daqui a poucos meses?

Nós ambicionamos sempre chegar o mais longe possível, mas também não queremos dar passos maiores do que as pernas. Ou seja não queremos sonhar alto de mais. A Finlândia é um adversário que já defrontamos, empatamos aqui no Algarve, mas cada jogo é único. Temos de analisar o momento físico e psicológico do adversário. A Itália tem vindo a trabalhar e a apostar muito no futebol feminino. No ano passado foram campeãs da Europa de sub-19, de certeza que vão agora aproveitar algumas dessas jogadoras para a selecção principal. O campeonato italiano também já é muito competitivo, e por isso vai ser complicado. Penso que estas duas selecções são as principais favoritas, são as nossas principais adversárias, são as barreiras mais complicadas, mas atenção, não são impossíveis. O nosso grupo está bem, está forte e confiante, e se chegar mais alguma jogadora com valor, penso que nos podemos bater de igual para igual.

Já não há jogos fáceis, no futebol feminino nunca há e por isso vai ser um bom desafio. No grupo estão também a Eslovénia e a Arménia que são selecções semelhantes à nossa, são muito equilibradas. A nossa ambição para além do apuramento é subir no ranking, quer no Mundial, quer no Europeu e queremos conseguir resultados positivos para alcançarmos esse objectivo. Considero que a nossa actual posição, a 42ª em nada condiz com o nosso valor, nem com o futebol que praticamos. É importante dar um saltinho. Depois se conseguirmos ir mais longe, se tivermos um pouco de sorte, tudo é possível. Importa também referir que o nosso trabalho, depende do trabalho dos treinadores das várias equipas, é um processo global, e o nosso sucesso é bom para todos. O trabalho que se faz nas equipas, a forma como as jogadoras estão preparadas é também muito importante, e se tudo resultar é sinal que o trabalho de todos tem sido muito positivo. Caso não consigamos, pelo menos que fiquemos lá perto, e só temos de continuar a trabalhar para evoluir nesse sentido.

Há pouco tempo, saíram notícias nos jornais que davam conta de propostas para treinar uma equipa sénior masculina do Distrital de Leiria (Beneditense). Isso teve algum fundo de verdade?

Sim. Mas de imediato encaminhei o convite para outras pessoas. Tenho exclusividade com a selecção, de vez em quando aparecem algumas propostas, mas não posso aceitar. Tento sempre indicar outras treinadoras, e para já não tenho interesse nisso. O meu objectivo não passa pelo futebol masculino.

Não tem qualquer objectivo de um dia vir a treinar uma equipa sénior masculina?

Um dia pode surgir um convite e até pode acontecer, mas sinceramente não tenho essa ambição.

Que objectivos tem para o seu futuro? Quer pessoais, quer profissionais.

Profissionalmente quero deixar o futebol feminino num patamar superior ao que está, ou seja, quero deixar as coisas melhores do que quando cheguei a esta casa para trabalhar. Desse modo, as pessoas que vierem depois de mim podem dar continuidade ao trabalho, porque já têm uma base forte formada. Claro que também ambiciono chegar a uma fase final de um Mundial, mas não estou muito fixada nisso. Quero subir no ranking, melhorar todos os dias. Se isto acontecer já fico muito satisfeita, e vou-me sentir realizada. Pessoalmente, quero realizar-me como pessoa, no meu trabalho mas também na minha vida pessoal. Quero ser mãe, ter a minha família, e saber sempre que cheguei onde cheguei sem ter passado por cima de ninguém. Em suma, quero ter uma vida normal, e um dia ter orgulho no patamar a que cheguei e passar esse sentimento para os meus filhos.

Como é que encara a hipótese de ir trabalhar para o estrangeiro?

É uma boa hipótese, nunca se sabe. Não sei se o meu futuro passa por lá, eu nunca sonhei que um dia viria a ser treinadora da selecção feminina portuguesa. Ao contrário de muitas pessoas que têm algo definido quando vão para a faculdade, eu não tinha. Depois é que surgiu a hipótese de vir estagiar para cá, e aconteceu. Por isso não posso prever o futuro, ou onde posso estar, contactos há muitos, e há países que ao nível do futebol feminino pagam bem e possibilitam outra dimensão. Mas espero que isso também aconteça em Portugal, que daqui a alguns anos a realidade seja diferente.

MÓNICA JORGE: A SALVADORA?

o sucesso não passa só por mim, as jogadoras também têm uma grande quota de responsabilidade, porque elas é que ganharam os jogos, elas é que lutaram. Lá está, o trabalho nunca é só de uma pessoa, é de todos os que intervêm no processo.

Tem a noção que é muitas vezes apelidada como a salvadora do futebol feminino em Portugal?

Salvadora? Não, claro que não (risos).

Mas concorda que veio dar uma nova chama ao futebol feminino?

Penso que consegui dar uma visão diferente do futebol feminino, dos jogos, e da selecção. Eu dou muitas vezes a cara em prol do futebol feminino, e vou sempre fazê-lo, sem quaisquer receios, nem problemas. Mas o sucesso não passa só por mim, as jogadoras também têm uma grande quota de responsabilidade, porque elas é que ganharam os jogos, elas é que lutaram. Lá está, o trabalho nunca é só de uma pessoa, é de todos os que intervêm no processo. Eu tento mostrar aquilo que sou, e transparecer a paixão que as jogadoras têm pelo futebol, e de representar o país.

A ÚNICA, COM O CURSO DE IV NÍVEL EM PORTUGAL

Espero que a partir de agora outras mulheres, inclusive as jogadoras que treino, possam ter essa determinação e vontade de tirar o IV nível.

No IV nível era um grupo ainda maior, com vários ex jogadores, alguns deles campeões do Mundo, e também fui muito bem acompanhada. Não tenho qualquer crítica a fazer, foram impecáveis, sempre disponíveis para ajudar, nunca me colocaram à parte em grupos de trabalho, discutíamos sempre os nossos pontos de vista.

Como se sente sendo a única mulher no país que tem o curso de IV nível de treinador reconhecido pela UEFA?

Espero ser um exemplo para outras mulheres, outras jogadoras e treinadoras. Já há treinadoras que têm o II e III nível e agora espero que tirem também o IV. Eu apenas fui a primeira que teve a determinação e a coragem para o tirar. Espero que a partir de agora outras mulheres, inclusive as jogadoras que treino, possam ter essa determinação e vontade de tirar o IV nível.

No curso de IV nível que realizou teve oportunidade de contactar com treinadores bastante conhecidos como o Paulo Sousa. Como é que a receberam?

Fui bastante bem recebida. Até estava à espera de ficar um pouco à parte. Mas já nos cursos de II e III nível fui muito acarinhada. No curso de III nível, estava com alguns problemas pessoais, pensava que não ia ter condições para concluir o curso, mas todos os colegas foram formidáveis, deram-me força para continuar, e consegui terminar. No IV nível era um grupo ainda maior, com vários ex-jogadores, alguns deles campeões do Mundo, e também fui muito bem acompanhada. Não tenho qualquer crítica a fazer, foram impecáveis, sempre disponíveis para ajudar, nunca me colocaram à parte em grupos de trabalho, discutíamos sempre os nossos pontos de vista. Houve bastante cumplicidade ao nível do trabalho e nas ideias que tínhamos. Foi uma experiência bastante boa, aprendi muito, e fiz grandes amigos, ainda hoje mantenho contacto com muitos deles.

Para além dos cursos de treinadora que outras formas encontra para se actualizar?

Como tirei o curso de IV nível há relativamente pouco tempo, e como estou a comandar as selecções A e sub 19 não tive tempo para fazer mais nada. Já houve uma actualização do curso que tirei, mas não pude mesmo ir, porque quando há competições das duas selecções, é muito complicado ter tempo para fazer mais alguma coisa. Mas tento sempre acompanhar alguns livros que são lançados e alguns trabalhos já feitos por treinadores de excelência. As novas tecnologias também são muito importantes nesse aspecto, pois permitem uma actualização permanente do que vai sendo feito. Participo também em colóquios, acções de formação, é sempre bom ouvir e participar nesses eventos. Ainda estou numa fase de aprendizagem, enquanto treinadora, este ano que passou considero que evolui imenso, mas há ainda muito para fazer. Tenho apenas 30 anos, nunca fui uma jogadora de selecção, apenas joguei nos distritais e por isso há sempre algumas lacunas a colmatar e experiência que tenho de adquirir. Desse modo, eu e a minha equipa técnica tentamos estar sempre informados dos desenvolvimentos que se vão processando no futebol, até porque estamos na casa mãe das selecções e há sempre a necessidade de estar um pouco à frente e de sermos pioneiros em certas coisas.

Monica_Jorge_6O RELATÓRIO DOS NOVE ANOS NA FEDERAÇÃO PORTUGUESA DE FUTEBOL

Desde que assumi o cargo de treinadora principal, considero que ainda tenho aprendido e evoluído muito mais, porque quando uma pessoa está à frente das coisas, e as coordena de acordo com os seus princípios e ideias aprende-se muito mais. Mas esse período em que trabalhei com outras pessoas foi também crucial, definiu a minha personalidade, deu-me mais maturidade com as dificuldades e facilidades com que me deparei.

Que balanço é que faz destes nove anos ao serviço da federação portuguesa de futebol?

Foi bom. Trabalhei com várias pessoas, com diferentes visões e formas de estar e por isso aprendi muito. Desde que assumi o cargo de treinadora principal, considero que ainda tenho aprendido e evoluído muito mais, porque quando uma pessoa está à frente das coisas, e as coordena de acordo com os seus princípios e ideias aprende-se muito mais. Mas esse período em que trabalhei com outras pessoas foi também crucial, definiu a minha personalidade, deu-me mais maturidade com as dificuldades e facilidades com que me deparei. Quero também agradecer às pessoas pela paciência que tiveram comigo e pela forma que me ajudaram. Depois, o professor José Augusto saiu, e como tinha acabado de tirar o IV nível endereçaram-me o convite. Já tinha alguns anos de selecção, sentia-me com capacidade para aceitar, as pessoas que me fizeram o convite confiaram nas minhas capacidades, acharam que eu era capaz de cumprir a função e por isso aceitei o cargo. Foi um desafio grande que enfrentei, ainda hoje continua a ser um desafio porque surgem sempre dificuldades dia após dia.

É difícil conciliar as funções de treinadora da selecção A e da selecção sub 19?

Não é fácil. E vai-se tornar cada vez mais difícil porque os jogos de apuramento da selecção principal, vão coincidir com os da selecção de sub 19. Vou ter de optar pela selecção A, porque os jogos são mesmo muito importantes. Mas quem vai estar no meu lugar, tem a minha total confiança. Eu coordeno as directrizes das duas selecções, mas depois é importante ter pessoas da máxima confiança que possam orientar a equipa consoante as minhas ideias e formas de pensar. E eu tenho a felicidade de ter duas pessoas espectaculares ao meu lado, que fazem muito bem o seu trabalho e em quem posso confiar. Não é uma situação fácil de gerir mas também não me preocupa muito, porque confio ao máximo neles.

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O OUTRO LADO DA SELECCIONADORA NACIONAL

Para além da federação existe outra Mónica. Venho ao ginásio, cuido dos meus animais, estou com a minha família.

Enquanto treinadora posso ser os dois extremos. Posso ser uma amiga, uma mãe, mas também posso ser a pior coisinha que veem à frente. Motivo-as muito, mas também sou muito exigente e mázinha.

Sou católica, contudo não ando a pedir a Deus para ganhar jogos. Ele tem mais com que se preocupar (risos).

Tenho a minha sensibilidade, a minha filosofia, e o meu sexto sentido. E isso os treinadores nunca vão ter (risos).

Como é o dia-a-dia da seleccionadora nacional?

Trabalho de manha e à tarde no computador. Faço os planos de treino, os preparativos das duas equipas, contacto as jogadoras para saber como elas estão, com outras selecções. Tenho a felicidade de poder trabalhar em casa, estou sempre no computador, posso estar em contacto com a secretária e com outras pessoas. Uma vez por semana, às vezes mais, venho à federação para reuniões. Depois ainda há a preparação dos estágios, a elaboração das convocatórias. E infelizmente, aparecem sempre problemas extras que têm de ser resolvidos. Há clubes que não deixam vir as jogadoras, etc.

Para além da federação existe outra Mónica. Venho ao ginásio, cuido dos meus animais, estou com a minha família.

As novas tecnologias têm uma grande importância no seu trabalho?

Sim, é verdade. Na elaboração das palestras, no estudo das adversárias, e na visualização de vídeos. A minha equipa técnica está bastante familiarizada com as novas tecnologias, e por isso tentamos sempre proporcionar o melhor às jogadoras.

Costumamos pedir aos jogadores para se descreverem nas nossas entrevistas. E vamos pedir-lhe também que se caracterize.

Eu vou ter de me caracterizar a mim??? (risos). Sou a pior pessoa para me caracterizar (risos). Sou muito negativista. Enquanto treinadora posso ser os dois extremos. Posso ser uma amiga, uma mãe, mas também posso ser a pior coisinha que vêm à frente. Motivo-as muito, mas também sou muito exigente e mázinha. Como pessoa sou normalíssima. Tenho dias bons, dias maus. Gosto de ouvir as pessoas, tanto as minhas jogadoras como os meus assistentes. Raramente tomo as decisões sozinha. A minha secretária também intervém no processo, não me posso esquecer dela. Não sou teimosa, tenho algumas manias, mas não sou nada supersticiosa, no entanto sou uma treinadora com fé. Sou católica, contudo não ando a pedir a Deus para ganhar jogos. Ele tem mais com que se preocupar (risos). Tenho defeitos, alguns são mais pessoais. Sou muito realista e frontal, não gosto de andar com jogadoras ao colo, porque esse não é o caminho certo. Mas para uma melhor caracterização têm de perguntar às jogadoras e aos meus assistentes.

Tem algum treinador ou treinadora em que se inspire?

Não. Lamento dizer isto, mas não (risos). Eu gosto da forma de trabalhar de alguns treinadores mas ninguém me inspira. Como digo habitualmente eu sou mulher, por isso não me posso inspirar num homem, nem muito menos copiar. Há treinadoras que trabalham bem no futebol feminino, mas nenhuma me fascina particularmente. Contudo, costumo guiar-me mais pelo trabalho dos treinadores, porque estão lá mais em cima, estão mais evoluídos. Gosto do trabalho do José Mourinho, do José Peseiro, desta nova geração de técnicos que têm valor e os resultados comprovam-no, mas não sigo fielmente, nem me revejo. Tenho uma forma de estar bastante própria, tenho uma forma própria de trabalhar, sou sempre muito sozinha, nunca fui de fazer algo porque estava na moda ou porque a maioria fazia. Tenho a minha sensibilidade, a minha filosofia, e o meu sexto sentido. E isso os treinadores nunca vão ter (risos).



Entrevista realizada no dia 8 de Maio 2009 na Sede da Federação Portuguesa de Futebol
Texto: Miguel Belo.
Imagem: Academia de Talentos.

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